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Artigos > Os Pataxó no Brasil: a re-criação de uma cultura

por Alexis Ulrich  LinkedIn

A história

Pataxo

Em Porto Seguro, na Costa do Descobrimento em 1500, os Tupiniquins, que falavam a língua Tupi, viviam no litoral com as suas aldeias e plantações. Eles foram integrados e aculturados na sociedade nova até à assimilação total. Outros indigenas (Pataxó, Maxakali, Kamacã e Botocudos), cujas línguas pertencem ao grupo Macro-Jê, viviam nas matas próximas ao litoral, de maneira seminômade, vivendo da caça e da colheita. Desde o início, há uma oposição entre os agricultores e os caçadores-colheidores.

Em meados do século XIX, os Pataxó, já expulsos das suas terras tradicionais, como os outros indígenas, viviam perto das vilas coloniais costeiras. Em 1861, o governo da província da Bahia concentrou toda a população indígena numa única aldeia: Barra Velha. A aculturação acelerou-se ainda mais com o modelo dos mestiços (os caboclos), já integrados no sistema de subsistência e no pequeno comerço local.

Em 1951, ocoreu um confronto entre os Pataxó e uma aldeia vizinha, e os indígenas foram dispersados pela região por violências policiais e perseguições. Alguns voltaram nos anos seguintes, casados com brancos, negros e mestiços. Antes disso, casaram-se só com outros Pataxó.

Em 1961, um decreto presidencial homologou o Parque Nacional do Monte Pascoal que incorporava todas as terras ocupadas pelos indígenas. O resultado disso foi que os indígenas não podiam explorar os recursos naturais, nem plantar, nem colher, nem pescar. Só podiam viver lá das indenizações do estado.

Em 1969, a FUNAI (FUndação NAcional do Índio) conseguiu que eles utilizassem parte do território, mas a terra era insuficiente e a sua má qualidade dava uma produtividade também insuficiente.

No início dos anos 70, com a região do Porto Seguro consagrando-se ao turismo, e sob a estimulação dos funcionários da FUNAI e dos comerciantes, os indígenas desenvolveram a sua produção de artesanato. Como a cultura Pataxó havia sido destruida, usaram padrões dos indígenas Xerente. Mudaram para Coroa Vermelha onde tanto os empreendedores turísticos como o poder público queriam índios caracterizados para vender o artesanato.

Em 1998, trinta Pataxó ocuparam a Reserva da Jaqueira, uma área de mata, para viver como os seus antepassados e explorar o ecoturismo. Esta área chama-se agora a Terra Indígena de Coroa Vermelha.

A cultura Pataxó

Desde a época do descobrimento até hoje, a história do povo Pataxó foi uma série de deculturação com a criação de aldeias artificiais onde indígenas de diferente grupos foram deslocados, onde falavam a língua portuguesa (ou a língua geral inventada pelos Jesuítas com base de vocabulário Tupinambá e gramática portuguesa), perdendo a sua língua, a sua maneira de viver, as suas crenças.

Com o factor externo da pressão turística e o interno ao grupo de ver-se como um povo autêntico, os Pataxó reinventaram a sua língua, o Patxohã (ou língua do guerreiro Pataxó), mas que revitalizaram-na (tem uma estrutura gramatical portuguesa e um léxico Maxakali). Também inventaram pinturas corporais (que não usaram no início do século XIX). Em 2001, fizeram um seminário que definiu os padrões de grafismo das pinturas corporais e atribuiram um significado a cada um deles.

Essa afirmação identitária com sinais diacríticos, ou seja de diferenciação, para se poder mostrar (e ver) como grupo diferente responde aos estereótipos da sociedade brasileira, e principalmente à imagem dos índios da Primeira Missa. Mas vai mais além disso, porque faz parte dum caminho que vai da auto-estima da comunidade, à sustentabilidade (econômica e cultural), até a autodeterminação Pataxó. Assim podemos verdadeiramente passar do índio ao indígena. Porém, as terras indígenas hoje no Brasil pertencem ao estado federal e não aos indígenas, quer dizer que é uma proteção da natureza e da biodiversidade, e não dos indígenas. Não são terras privadas, mas terras comuns de todo o povo brasileiro.

Conclusão

Se a historia de reapropriação da cultura pelos Pataxó podria servir de exemplo para outros povos indígenas, as lutas dos povos indígenas no Brasil não são tão pacíficas como esta. Os guaranis estão a ser matados pelos fazendeiros no Mato Grosso do Sul, onde reivindicam as suas terras ancestrais. No dia 18 de novembro de 2011, o cacique Nísio Gomes, de 59 anos, foi assassinado à frente da sua comunidade e o seu corpo levado.

«Entre 2003 e 2010 houve 250 indígenas assassinados apenas no Mato Grosso do Sul: mais da metade do total geral de 452 mortes registradas de indígenas em todo o Brasil.» (fonte: Relatório de Violência contra os Povos Indígenas no Brasil, em pdf)

Fontes

Ilustrações: Calliopejen
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