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Artigos > As cantigas de Santa Maria e o galaico-português

por Alexis Ulrich  LinkedIn

Neste artigo, vou falar sobre as Cantigas de Santa Maria, que são canções religiosas do século XIII, escritas em galaico-português. Mas antes disso, pare que vocês possam saber do que se trata, vamos ouvir uma cantiga, a chamada «Como Deus fez vynno d’agua».


Cantiga 23: Como Deus fez vynno d’agua
00:00
Esta é como Santa María acrecentou o vyo no tonel, por amor da bõa dona de Bretanna
00:57
Como Deus fez vyo d’agua ant’ Archetecryo,
ben assi depois sa Madr’ acrecentou o o vinno.
01:09
Desto direi un miragre que fez en Bretanna
Santa Maria por hûa dona mui sen sanna,
en que muito bon costum’ e muita bõa manna
Deus posera, que quis dela seer seu vezyo.
01:31
Como Deus fez vyo d’agua ant’ Archetecryo,
ben assi depois sa Madr’ acrecentou o o vinno.
01:42
Sobre toda-las bondades que ela avia,
era que muito fiava en Santa Maria;
e porende a tirou de vergonna un dia
del Rei, que a ssa casa vêera de camyo.
02:41
Como Deus fez vyo d’agua ant’ Archetecryo,
ben assi depois sa Madr’ acrecentou o o vinno.
02:54
A dona polo servir foi muit’ afazendada,
e deu-lle carn’ e pescado e pan e cevada;
mas de bon vyo pera el era mui menguada,
ca non tîia senon pouco en un tonelcyo.
03:26
E dobrava-xe-ll’ a coita, ca pero quisesse
ave-lo, non era end’ en terra que podesse
por dîeiros nen por outr’ aver que por el desse
se non fosse pola Madre do Vell’ e Menîo.
03:49
Como Deus fez vyo d’agua ant’ Archetecryo,
ben assi depois sa Madr’ acrecentou o o vinno.
04:00
E con aquest’ asperança foi aa eigreja
e diss’ “Ai, Santa Maria, ta mercee seja
que me saques daquesta vergonna tan sobeja;
se non, nunca vestirei ja mais lãa nen lyo.”
04:22
Como Deus fez vyo d’agua ant’ Archetecryo,
ben assi depois sa Madr’ acrecentou o o vinno.
04:33
Mantenent’ a oraçon da dona foi oyda,
e el Rei e ssa companna toda foi conprida
de bon vinn’, e a adega non en foi falida
que non achass’ y avond’ o riqu’ e o mesqyo.
04:55
Como Deus fez vyo d’agua ant’ Archetecryo,
ben assi depois sa Madr’ acrecentou o o vinno.

As Cantigas

Contexto histórico

Em 1139, Dom Afonso Henriques autoproclamou-se rei de Portugal após a batalha de Ourique contra os mouros, o que foi finalizado pelo tratado de Zamora em 1143. Estávamos na Idade Media, na época da Reconquista, e o Reino de Portugal está a iniciar-se à medida que se reconquistam territórios. Mas o rei ainda é o vassalo do rei de Castela e Leão, Dom Afonso VII, e vai o ficar até 1179, quando o Papa Alexandre II reconheçe-lhe o direito de lhe prestar vassalagem direta. O último episódio da reconquista portuguesa foi a inclusão da província do Algarve em 1249.

O Trovadorismo

O trovadorismo é o nome do movimento centrado no trovador, um poeta de origem nobre que compõe cantigas, ou seja poesias cantadas, e as melodias que as acompanham. As cantigas eram também interpretadas pelos jograis, pessoas que não pertenciam à nobreza (ou vilões). Estes eram artistas profissionais atuando nas praças públicas para divertir o público e também nos palácios senhoriais. Os trovadores cantavam na língua occitana no sul da atual França, e em galaico-português em Portugal e na Galiza.


Cantiga 42: A Virgen mui groriosa
00:00
Esta é de como o crerizon meteu o anel eno dedo da omagen de Santa María, e a omagen encolleu o dedo con el.
00:26
A Virgen mui groriosa, reyna espirital,
dos que ama é ceosa, ca non quer que façan mal.
00:41
Dest’ un miragre fremoso, ond’ averedes sabor,
vos direy, que fez a Virgem, Madre de Nostro Sennor,
per que tirou de gran falla a un mui falss’ amador,
que amyude cambiava seus amores dun en al.
01:10
A Virgen mui groriosa, reyna espirital,
dos que ama é ceosa, ca non quer que façan mal.
01:25
Foi en terra d’Alemanna que querian renovar
hûas gentes ssa eigreja, e poren foran tirar
a majestad’ ende fora, que estava no altar,
e posérona na porta da praça, sso o portal.
02:08
Este donzel, con gran medo de xe l’o anel torcer
ando feriss’ a pelota, foy buscar u o põer
podess’; e viu a omage tan fremosa parecer,
e foi-llo meter no dedo, dizend’: “Oi mais non m’enchal.
02:37
A Virgen mui groriosa, reyna espirital,
dos que ama é ceosa, ca non quer que façan mal.
02:51
Daquela que eu amava, ca eu ben o jur’ a Deus
que nunca tan bela cousa viron estes ollos meus;
poren daqui adeante serei eu dos servos teus,
e est’ anel tan fremoso ti dou porend’ en sinal.”
03:19
A Virgen mui groriosa, reyna espirital,
dos que ama é ceosa, ca non quer que façan mal.
03:34
E da Virgen groriosa nunca depois se nenbrou,
mas da amiga primeira outra vez sse namorou,
e per prazer dos parentes logo con ela casou
e sabor do outro mundo leixou polo terreal.
04:03
A Virgen mui groriosa, reyna espirital,
dos que ama é ceosa, ca non quer que façan mal.
04:17
Poi-las vodas foron feitas e o dia sse sayu,
deitou-ss’ o novio primeiro e tan toste ss’adormyu;
e el dormindo, en sonnos a Santa Maria vyu,
que o chamou mui sannuda: “Ai, meu falss’e mentiral!”
04:46
A Virgen mui groriosa, reyna espirital,
dos que ama é ceosa, ca non quer que façan mal.
05:00
Enton ss’ espertou o novio, e desto tal medo pres
que ss’ergeu e foi ssa via, que non chamou dous nen tres
omêes que con el fossen; e per montes mais dun mes
andou, e an un’ hermida se meteu cab’ un pîal.
05:30
A Virgen mui groriosa, reyna espirital,
dos que ama é ceosa, ca non quer que façan mal.

As Cantigas de Santa Maria

Descrição

As Cantigas de Santa Maria são um conjunto de 427 composições em galaico-português, que no século XIII era a língua fundamental da lírica culta em Castela. Foram patrocinadas por Afonso X o Sábio, o rei de Castela e Leão de 1252 até 1284. Ele próprio escreveu algumas cantigas e compôs alguns acompanhamentos deste cancioneiro sobre os prodígios e milagres da Virgem.

Dividem-se em dois grupos: as Cantigas de Nossa Senhora, que são um conjunto de histórias e milagres, e as Cantigas de louvor e elogio, cujo número é múltiplo de dez, e que são mais semelhantes à hinos sagrados, poemas de reflexão sobre a Virgem. Na sua qualidade de mãe de Jesus, e com a sua figura humana mais perto de nós do que pode estar a Trindad, tem um papel de intercessão e perdoa os pecados.

Atualmente, as Cantigas encontram-se em quatro lugares: um manuscrito na Biblioteca Nacional da Espanha que fica em Toledo, um no Escorial, perto de Madrid, e dois em Florença, na Itália.

Conteúdo

O objetivo declarado do rei Afonso X fica no prólogo B:

E o que quero é dizer loor da Virgen, Madre de nostro Sennor… e por aquest seu quero seer oy máis seu trobador e rogó-lle que me queira por seu trobador e que queira meu trobar receber…

O que se pode traduzir por:

E o que quero é tecer louvores à Virgem, a Mãe do nosso Senhor… e por isto, só quero ser hoje o seu trovador, e rogo-lhe que me queira pelo seu trovador e que queira o meu trovar receber.

Além do proposito principal descrito por Afonso X nesse prólogo, as cantigas de Santa Maria eram uma maneira de fixar as diferentes versões das historias dos milagres para as distribuir melhor. Assim, o povo que não sabia ler nem escrever podia aprender os milagres na sua própria língua, o galaico-português, dado que nas igrejas era o latim que se usava.

Algumas cantigas têm origem nas experiências pessoais do rei, numa hagiografia disfarçada, na qual expressa a sua espiritualidade, o seu pensamento e a pessoa que queria ser. Por exemplo, na cantiga 300 (Muito devería óme sempr’ a loar), diz que «por ela vai trovar, e cuidando e buscando de que maneira a poderia honrar» (por ela vou trobar, e cuidando e buscando como a póssa onrrar).


Cantiga 129: De todo mal e de toda ferida
01:16
De todo mal e de toda ferida
sãar pod’ om’ a de ben mui comprida.
01:27
Dest’ a un ome que de Murvedr’ era
mostrou a Virgen maravilla fera
dûa gran saetada que presera
en hûa lide forte sen medida.
01:47
De todo mal e de toda ferida
sãar pod’ om’ a de ben mui comprida.
01:57
E a saeta assi ll’ acertara
pelo ollo, que logo llo britara
e ben ate eno toutiço entrara,
de guisa que lle non põyan vida.
02:17
De todo mal e de toda ferida
sãar pod’ om’ a de ben mui comprida.
02:47
Mas ele pos sa alm’ e sa fazenda
ena Virgen e deu-xe-ll’ en comenda,
e a Salas prometeu offerenda
se el da chaga ouvesse guarida.
03:06
De todo mal e de toda ferida
sãar pod’ om’ a de ben mui comprida.
03:17
E logo mandou a saeta fora
tirar do ollo, e en essa ora
guariu de todo logo sen demora,
des que a saeta en foi sayda,
que da saetada ren non sentia;
des i do ollo atan ben guaria
que ben com’ ante vira del viia.
E pera Salas fez logo sa ida,
03:56
De todo mal e de toda ferida
sãar pod’ om’ a de ben mui comprida.
04:25
loand’ a Virgen santa groriosa,
Madre de Deus, Reyna poderosa,
que o sãara como piadosa.
E esta cousa foi mui lonj’ oyda
04:45
De todo mal e de toda ferida
sãar pod’ om’ a de ben mui comprida.
04:56
pelas terras; e quantos lo souberon
a Santa Maria loores deron
de Salas, e mui gran sabor ouveron
de fazer log’ a ela ssa vîida.
05:15
De todo mal e de toda ferida
sãar pod’ om’ a de ben mui comprida.

Língua

Evolução das línguas

Na sua corte em Toledo, Afonso X reuniu cristãos, judeus e muçulmanos para traduzir textos da antiguidade. Além disso, realizou a primeira reforma ortográfica do castelhano, codificando a sua grafia. Assim, duplicou o n para render o sonido [nh], o que foi escrito pelos copistas com o ñ castelhano. Ele adoptou o castelhano como língua oficial em detrimento do latim.

O trovadorismo era importante na sua família: o seu neto, o rei Dinis 1° que reinou sobre Portugal entre 1279 e 1325, era também trovador. 137 cantigas dele chegaram à nossa época. Criou a primeira Universidade portuguesa, inicialmente em Lisboa, e depois transferida para Coimbra em 1308. Ali, ensinavam-se Artes, Direito Civil, Direito Canónico e Medicina.

Ele dou o nome português ao galaico-português que foi a partir de 1290 a língua da corte.

Com a divisão política de Portugal ao sul e da Galiza ao norte, o português e o galego evoluiram diferentemente. O português ganhou mais vocabulário do árabe, como por exemplo açucar («as-sukkar»), arroz («ar-ruz»), azeite («az-zait»)… e também nomes de lugares e regiões, como Algarve («Al-Gharb»), Alcântara («al-qantara», ponte, viaduto)…

Do seu lado, o galego castelhanizou-se e a partir do século XV, com a dominação castelhana, a língua galega perdando o seu uso nos registos oficiais, período que se chama os «Séculos Escuros» e que durou até quase a metade do século XIX.

Detalhe

O galego-português

Hoje em dia, na Galiza, há duas correntes linguísticas que são os reintegracionistas e os isolacionistas.

Os reintegracionistas consideram o galego e o português como uma única língua, separada pela história dos territórios, e querem modificar a ortografia galega para unir de novo as duas línguas. Eles chamam o galego galego-português.

Um subgrupo deles, os lusismos, quer seguir as regras ortografias do português no galego-português, enquanto outros desejam incluir essas mudanças de forma mais lenta. Os independentistas usam já a grafia reintegracionista desde 1985.

Pelos isolacionistas, representados pela Real Academia Galega, a instituição pública que promove a língua galega, o galego é uma língua por si própria.

Assim, a questão da língua é uma questão de identidade linguística, cultural e política ao mesmo tempo.

Continuum dialetal

O catalão, o aragonês, o castelhano, o galego-asturiano, a fala da Estremadura, o galego-português, o português… Todas essas línguas provêm do latim e têm semelhanças que as tornam até um certo ponto mutuamente inteligíveis ou intercompreensíveis.

Quando uma pessoa sabe algumas regras de mudanças de sons entre línguas e com um bocadinho de prática, podem-se ler todas as línguas da península ibérica, os diferentes ocitanos, o italiano oficial e todos os seus dialetos, até mesmo o romeno.

As fronteiras entre as línguas são artificiais para os que querem se emancipar delas.

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