As cantigas de Santa Maria e o galaico-português

por Alexis Ulrich

Neste artigo, vou falar sobre as Cantigas de Santa Maria, que são canções religiosas do século XIII, escritas em galaico-português. Mas antes disso, pare que vocês possam saber do que se trata, vamos ouvir uma cantiga, a chamada «Como Deus fez vynno d’agua».

As Cantigas

Contexto histórico

Em 1139, Dom Afonso Henriques autoproclamou-se rei de Portugal após a batalha de Ourique contra os mouros, o que foi finalizado pelo tratado de Zamora em 1143. Estávamos na Idade Media, na época da Reconquista, e o Reino de Portugal está a iniciar-se à medida que se reconquistam territórios. Mas o rei ainda é o vassalo do rei de Castela e Leão, Dom Afonso VII, e vai o ficar até 1179, quando o Papa Alexandre II reconheçe-lhe o direito de lhe prestar vassalagem direta. O último episódio da reconquista portuguesa foi a inclusão da província do Algarve em 1249.

O Trovadorismo

O trovadorismo é o nome do movimento centrado no trovador, um poeta de origem nobre que compõe cantigas, ou seja poesias cantadas, e as melodias que as acompanham. As cantigas eram também interpretadas pelos jograis, pessoas que não pertenciam à nobreza (ou vilões). Estes eram artistas profissionais atuando nas praças públicas para divertir o público e também nos palácios senhoriais. Os trovadores cantavam na língua occitana no sul da atual França, e em galaico-português em Portugal e na Galiza.


As Cantigas de Santa Maria

Descrição

As Cantigas de Santa Maria são um conjunto de 427 composições em galaico-português, que no século XIII era a língua fundamental da lírica culta em Castela. Foram patrocinadas por Afonso X o Sábio, o rei de Castela e Leão de 1252 até 1284. Ele próprio escreveu algumas cantigas e compôs alguns acompanhamentos deste cancioneiro sobre os prodígios e milagres da Virgem.

Dividem-se em dois grupos: as Cantigas de Nossa Senhora, que são um conjunto de histórias e milagres, e as Cantigas de louvor e elogio, cujo número é múltiplo de dez, e que são mais semelhantes à hinos sagrados, poemas de reflexão sobre a Virgem. Na sua qualidade de mãe de Jesus, e com a sua figura humana mais perto de nós do que pode estar a Trindad, tem um papel de intercessão e perdoa os pecados.

Atualmente, as Cantigas encontram-se em quatro lugares: um manuscrito na Biblioteca Nacional da Espanha que fica em Toledo, um no Escorial, perto de Madrid, e dois em Florença, na Itália.

Conteúdo

O objetivo declarado do rei Afonso X fica no prólogo B:

E o que quero é dizer loor da Virgen, Madre de nostro Sennor… e por aquest seu quero seer oy máis seu trobador e rogó-lle que me queira por seu trobador e que queira meu trobar receber…

O que se pode traduzir por:

E o que quero é tecer louvores à Virgem, a Mãe do nosso Senhor… e por isto, só quero ser hoje o seu trovador, e rogo-lhe que me queira pelo seu trovador e que queira o meu trovar receber.

Além do proposito principal descrito por Afonso X nesse prólogo, as cantigas de Santa Maria eram uma maneira de fixar as diferentes versões das historias dos milagres para as distribuir melhor. Assim, o povo que não sabia ler nem escrever podia aprender os milagres na sua própria língua, o galaico-português, dado que nas igrejas era o latim que se usava.

Algumas cantigas têm origem nas experiências pessoais do rei, numa hagiografia disfarçada, na qual expressa a sua espiritualidade, o seu pensamento e a pessoa que queria ser. Por exemplo, na cantiga 300 (Muito devería óme sempr’ a loar), diz que «por ela vai trovar, e cuidando e buscando de que maneira a poderia honrar» (por ela vou trobar, e cuidando e buscando como a póssa onrrar).


Língua

Evolução das línguas

Na sua corte em Toledo, Afonso X reuniu cristãos, judeus e muçulmanos para traduzir textos da antiguidade. Além disso, realizou a primeira reforma ortográfica do castelhano, codificando a sua grafia. Assim, duplicou o n para render o sonido [nh], o que foi escrito pelos copistas com o ñ castelhano. Ele adoptou o castelhano como língua oficial em detrimento do latim.

O trovadorismo era importante na sua família: o seu neto, o rei Dinis 1° que reinou sobre Portugal entre 1279 e 1325, era também trovador. 137 cantigas dele chegaram à nossa época. Criou a primeira Universidade portuguesa, inicialmente em Lisboa, e depois transferida para Coimbra em 1308. Ali, ensinavam-se Artes, Direito Civil, Direito Canónico e Medicina.

Ele dou o nome português ao galaico-português que foi a partir de 1290 a língua da corte.

Com a divisão política de Portugal ao sul e da Galiza ao norte, o português e o galego evoluiram diferentemente. O português ganhou mais vocabulário do árabe, como por exemplo açucar («as-sukkar»), arroz («ar-ruz»), azeite («az-zait»)… e também nomes de lugares e regiões, como Algarve («Al-Gharb»), Alcântara («al-qantara», ponte, viaduto)…

Do seu lado, o galego castelhanizou-se e a partir do século XV, com a dominação castelhana, a língua galega perdando o seu uso nos registos oficiais, período que se chama os «Séculos Escuros» e que durou até quase a metade do século XIX.

O galego-português

Hoje em dia, na Galiza, há duas correntes linguísticas que são os reintegracionistas e os isolacionistas.

Os reintegracionistas consideram o galego e o português como uma única língua, separada pela história dos territórios, e querem modificar a ortografia galega para unir de novo as duas línguas. Eles chamam o galego galego-português.

Um subgrupo deles, os lusismos, quer seguir as regras ortografias do português no galego-português, enquanto outros desejam incluir essas mudanças de forma mais lenta. Os independentistas usam já a grafia reintegracionista desde 1985.

Pelos isolacionistas, representados pela Real Academia Galega, a instituição pública que promove a língua galega, o galego é uma língua por si própria.

Assim, a questão da língua é uma questão de identidade linguística, cultural e política ao mesmo tempo.

Continuum dialetal

O catalão, o aragonês, o castelhano, o galego-asturiano, a fala da Estremadura, o galego-português, o português… Todas essas línguas provêm do latim e têm semelhanças que as tornam até um certo ponto mutuamente inteligíveis ou intercompreensíveis.

Quando uma pessoa sabe algumas regras de mudanças de sons entre línguas e com um bocadinho de prática, podem-se ler todas as línguas da península ibérica, os diferentes ocitanos, o italiano oficial e todos os seus dialetos, até mesmo o romeno.

As fronteiras entre as línguas são artificiais para os que querem se emancipar delas.